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A Literatura dos Espaços Populares Agora

 

Apresenta:

Entrevista com o jornalista e escritor Hélio Euclides.

 

Hélio Euclides é jornalista, morador do Complexo de favelas da Maré e um dos contistas do livro Marginal – Contos de Periferia, obra que compõe uma das primeiras antologias organizadas do projeto ALEPA (2010). Neste trabalho, Hélio Euclides se destacou pelo bom humor e simplicidade com que retratou situações inusitadas, divertidas e até mesmo dramáticas que poderiam ser pano de fundo de qualquer favela do país. Contudo, o grande vencedor do 5º Prêmio Visibilidade de 2011, também sabe falar sério quando o assunto é política social. Nosso autor recebeu o primeiro lugar desta edição do Prêmio na categoria “Reportagem escrita” com a matéria “Basta!”, reportagem que aborda a questão das mulheres que denunciam as agressões sofridas por seus companheiros ou familiares. Além desta, Hélio ainda levou terceiro lugar, com o texto “Futuro incerto”, desta vez, o jornalista denuncia a incerteza de futuro dos moradores, em função da falta de diálogo com a prefeitura carioca, todas publicadas no Jornal Maré de Notícias.

 

1 – Fale um pouco sobre o seu percurso pessoal, profissional, cultural e porque não, literário também.

 

Comecei o meu trabalho de comunicação comunitária em 1999, num jornal da Maré, no qual atuei até 2008. Durante esse período fiquei cinco meses na Rádio Revolução FM, em Água Santa, que realizava trabalho conjunto com portadores do vírus HIV e portadores de necessidades especiais. Depois fui para a Rádio Viva Rio AM, onde atuei nove meses, como repórter da Maré. Nessa fase ingressei na faculdade de Comunicação e estagiei na Rádio Web Maré Manguinhos. Também já são seis anos como assessor de comunicação da Legião de Maria RJ. Ao final de 2008, comecei no Setor de Comunicação da Redes da Maré e um ano depois na empreitada de fundar um novo jornal da instituição. Assim nasceu o Maré de Notícias. No que diz respeito às publicações, já publiquei minhas fotos em três livros. Como escritor, comecei com os dois contos, algo que não imaginava realizar, posso dizer que foi fantástico. A Adriana Kairos foi uma incentivadora. Agora estou na produção de um livro infantil.

 

2 – Explica a relação entre leitura e a escrita, tanto profissional-jornalistica como literária, na sua vida. A importância destes dois atos para você como morador de espaço popular.

 

Pode parecer meio romântico, mas acredito que escrever é algo mágico. Muitas vezes pego o jornal e leio um texto meu e penso, fui eu que desenvolvi essas linhas? Acredito ser um dom de Deus. Um exemplo são os contos, um que chama atenção para uma convivência cada vez forte com os angolanos aqui na Maré, e a outro a fantasia de um evento numa favela. Espero incentivar o morador a colocar o que pensa e o que deseja no papel.

 

3 – No livro Marginal – Contos de Periferia você participa com dois contos: “Agente tupiniquim” Fale um pouco e “Favela teu cenário é uma bela!”. desses textos, de sua motivação para criá-los e de como foi participar do projeto.

 

O Agente Tupiniquim mistura a realidade com o imaginário. Todos os nomes são de pessoas amigas. E também foi uma homenagem a todos os angolanos com os quais convivi. O conto mostra um povo que se mistura com os moradores da Maré, trazendo a riqueza da sua cultura, mas que infelizmente em alguns momentos sofre com o preconceito. Posso dizer que esse agente pode ser eu ou você. Já o segundo, o meu pensamento era ser Favela teu cenário é uma beleza, mas fiquei com medo de usar algo já registrado, então ficou uma bela. Acho que faltou a reticências, para que cada um pudesse completar a frase. Hoje todos mostram que a favela agora é algo lindo, mas o conto quis mostrar que a favela é maravilhosa desde que existe, e não é apenas um ato do governo que vai modificá-la. E ocorrer um reality show nela foi brilhante.

 

4– Falando um pouco mais de trabalhos e realizações, como já comentamos na introdução desta entrevista, você foi o grande vencedor, de uma das categorias, do V Prêmio Visibilidade das Políticas Sociais e do Serviço Social. Como foi receber este prêmio? Qual a importância dele na sua carreira?

 

Foi o primeiro, e vou continuar a realizar meu trabalho com ética. Quem sabe pode vim outros no futuro? A matéria do primeiro lugar foi escrita em 2010, e relata a história de mulheres que sofrem com a violência doméstica.

Infelizmente o texto ainda é atual. Na época convivi na delegacia especializada com o sofrimento, e no Centro de Mulheres da Maré, com outras que já superaram o momento difícil. Um dia pensei em desistir da carreira, e esse prêmio veio como um sinal para continuar. Esse prêmio também é um estímulo para continuar trabalhando nessa linha de escrever em prol da comunidade e buscando a ética e verdade.

 

5 – Como organizadora das antologias, procuro manter-me informada sobre a repercussão dos livros junto aos leitores. Sempre que tenho a oportunidade de proferir palestras ou oficinas e nessas ocasiões leio trechinhos de alguns textos dos livros do ALEPA, percebo que os seus contos causam uma empatia imediata com o público, principalmente entre os adolescentes. Quais são os ingredientes básicos e fundamentais para uma boa história?

 

Temos que escrever para o outro, dividir o que pensa com mais pessoas. Quando escrevi não pensei em um público específico, poderia atingir do adolescente até os nossos avós. Fiquei surpreso com essa faixa etária gostar tanto, espero que esses contos sirvam com incentivo para essa garota, ler e escrever. E escrever é viajar na realidade de dois mundos, o real e é da ficção. Então o escritor concede o passaporte, e o leitor abre e embarca.

 

6 - Em que projeto você está trabalhando agora? Pensa em escrever um livro solo de contos ou crônicas?

 

Como já citei, estou viajando no mundo infantil. Um livro bem fantástico com mensagens legais para as crianças. A demora na conclusão é explicada pela emoção do escritor. E também pelo meu tom perfeccionista, de querer criar algo de boa qualidade para esses pequeninos leitores.  

 

7 – Para encerrar nosso papo, deixe para o nosso leitor uma mensagem (positiva ou negativa, você é quem sabe).

 

Eu tive na bienal de 2009 com o Ziraldo, um cara de cabelo de neve, mas que passa no papel uma sinceridade de criança. Incorporar o personagem é fundamental, e Ziraldo é o eterno menino maluquinho. E ele é um incentivador da leitura. Dessa forma, estou em um projeto que se chama criança leitora, que vai atingir toda a Maré, será um trabalho que vai plantar uma sementinha de escritor em cada envolvido.

 

 

Matéria do Jornal Futura - Canal FUTURA - com a coordenadora do Projeto ALEPA, Adriana Kairos, e a participação de alguns autores (Damião Alfredo, Aline Leite, Dayse Castro, Hélio Euclides e Élcio Alves) dos livros: "Marginal" e "Poesia Suburbana".

 

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